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terça-feira, 10 de maio de 2011

Crítica e comunicação

[...] uma crítica cinematográfica de ordem puramente estética deve estar reservada às revistas, nas quais o crítico, não sendo obrigado a falar sobre todos os filmes indiscriminadamente, pode se dedicar aos poucos que apresentarem algum interesse artístico. Quanto à crítica de jornal (o nome de crônica talvez ficasse melhor), esta, para existir, terá que aceitar forçosamente o ponto de vista do público, isto é, terá que encarar os filmes que visam divertir apenas sob este ângulo.

(Decio de Almeida Prado, nos anos 1940 [?])

domingo, 20 de fevereiro de 2011

crítica literária

que o trabalho do crítico é educar o público
e o do artista, educar o crítico

o pound bate muito nessa tecla da educação
que, me parece, já vem de muito antes
cícero? santo agostinho? eu ando perdendo toda a erudição
não sei mais citar ninguém
é uma aposta num modo de pensar
fichas na mesa

comecei este blogue pra tentar escrever crítica literária fora dos moldes acadêmicos e jornalísticos. e mais próximo do modo como eu lia quando era adolescente. uma crítica mais impressionista do que profissional. "profissional" quase sempre significa rabo preso, e é isso que eu não queria. nem o rabo preso das relações pessoais, nem o rabo preso das correntes teóricas. uma crítica com o lirismo dos bêbados.

acho que nunca fiz uma autoavaliação do blogue. sempre que tentei, entrei num tom muito pomposo. fiquei tão refestelado em mim que falei "bleh não quero mais" e larguei isso aqui. agora tou pensando se tem de ser realmente assim.

verdade que conheci muita gente legal por causa deste blogue. disso não posso reclamar mesmo.

talvez o caminho seja - acho que foi sempre nessas circunstâncias em que me saí melhor - não encerrar nada. deixar o respiro ficar só respirando. e depois não ficar achando que fiz pouco.

é difícil, porque tem que lembrar o tempo todo que o que eu quero é isso, e não outra coisa.

nenhuma coerência. nenhuma reverência. não quero saber da crítica que não é libertação. as bichas dizem "meu cu!"

o monumento não tem porta.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

gosto

Eu só acredito em um Deus que saiba como dançar.

*

(o título do post ia ser "critério", mas então eu pensei: que critério é posterior. Ou, quando anterior, ele impede o ritmo novo.)

Elx vem dançando na sua direção. É pegar ou largar. Livros são assim.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tropeçavas nos astros desastrada

Agora, toda quarta-feira eu escrevo na Biblioteca do Mundo do Saturnália, um site de astrologia lá de Curitiba. Não faço previsões nem amarração do amor, a não ser que o amor se amarre nesse meu jeito de corpo. É uma coluna fixa sobre literatura, mais ou menos nos moldes do que eu escrevo aqui, mas - até agora - com menos pretensão teórica.

Dizem que quando o Guimarães Rosa morreu, e ele lia até Platão no original, esperavam uma biblioteca eruditissíssima na casa dele. Mas nas prateleiras vazias só havia um manual de astrologia.

Que era um saber erudito antes de virar revista barata em banca de jornal. Faz sentido. Imagine quem seria capaz de ler os textos clássicos, ao menos os renascentistas, tanto latim pra pouca gente. As estrelas falam de nós, mas não nos compreendem. Astrologia é um trabalho de tradução e um saber sobre o tempo. Gosto muito de uns versos simples da Orides Fontela: "tudo / se move". É o final de um poema.

E tem o final lindo do Inferno de Dante. Quando ele e Virgílio passam por Lúcifer, que é o mais fundo do inferno, o ralo. E do lado de baixo do Diabo aparecem aos pés da montanha do Purgatório: "E quindi uscimmo a riveder le stelle". E então saímos, a rever as estrelas.

*

Ligando os estudos astrológicos aos literários, vejo dois caminhos principais. Me parece que o estudo dos arquétipos seja o mais óbvio. Bachelard diz que o arquétipo é um convite à ação - e não uma imagem estagnada, como a gente também pode pensar. Como "convite à ação", Vênus é um movimento, um ritmo, mais do que um conceito. Sendo assim, a estrela Vésper da obra de Manuel Bandeira poderia ser um lumiar para a leitura de seus poemas.

(Não entendo isso, mas é o que tem pra hoje.)

O outro caminho seria o de unir o tempo astrológico ao da historiografia literária, percebendo as convergências (e os hiatos?) entre algumas obras e movimentos artísticos e os movimentos dos astros. A astrologia como marcação temporal da história.

*

Minha intenção não é trilhar nada disso. Agora agorinha mesmo nem intenção tenho. Às quartas-feiras estou aprendendo muito. A coluna se chama Prateleira Mercúrio.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Debaixo de água e no ar ao contrário

No que a literatura tem de afeto gratuito, feito uma dádiva de ninguém, você andando pela rua passa uma ponte e de repente percebe a belezura de um rio: que é um deslizar de águas. No nosso olhar, elas são só o movimento, sem origem nem destino, e está bem estarem as margens ali, em consonância com as ondas marrons que podiam ser de terra, as margens mesmo que sejam cimentadas, é que a beleza não escolhe ideologia pra pousar.

Naquela entrevista famosa pra TV Cultura, uma parte Clarice Lispector diz que, quando não escreve, está morta. Se existe uma verdade, junto com a Lispector eu escolho esta: é graças à arte que a gente vive.



O que não é nenhuma ideia original - aliás, como nenhuma outra. Um texto muito bonito - "A arte como procedimento", de Chklovski - diz o seguinte:

E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é um meio de experimentar o devir do objeto, o que é já "passado" não importa para a arte.

Essa experiência do devir é a esperança palpável que uma leitura traz quando toca a gente. "Palpável" porque aí não se trata de um ancoramento no futuro, mas sim de um voo firme simultâneo a um pouso leve no presente: o que Gandhi se recusa a chamar de "Verdade" e chama de "experiência com a verdade". Quando lemos um texto que nos faz experienciar a verdade, temos um encontro de matérias (as nossas mãos, o papel do livro) que se transforma num êxtase de sentidos (como quando lemos uma frase e os olhos se desviam do livro, porque o corpo pede). É a vida intensa, concentrada.

Nesse sentido, a literatura não pode ser isolada da experiência material e histórica da leitura. Uma biblioteca é um depósito de possibilidades, mas jamais se poderá ditar as palavras em que os outros se satisfarão, de modo que se torna bastante compreensível porque, para muitas pessoas, as aulas de literatura do colégio se tornam um fardo e, posteriormente, uma lembrança ruim e engraçada.

No ABC da Literatura, Pound desenvolve a ideia de que a literatura deve apenas ser ensinada aos que realmente se interessarem por ela. Realmente, quando tomamos a literatura como um conjunto de referências históricas e conceituais (o cânone ou, no caso de Pound, o paideuma), faz sentido que não seja de interesse geral um aprofundamento nos meandros desses referenciais. No livro Como falar dos livros que não lemos, Pierre Bayard advoga que, sendo impossível a qualquer pessoa ler todas as obras canônicas existentes, o que se deve esperar é uma mínima familiaridade com seus títulos e com a importância que atualmente se dá a cada uma delas. Esse pragmatismo do senso histórico pode ser bastante útil para uma sala de aula.

Também porque, assim, talvez seja possível a gente separar a literatura como uma instituição da literatura como experiência estética. Se mencionar Paulo Coelho numa discussão letrada pode entortar muitos narizes, imagino que a "singularização do objeto" sentida com a leitura de O alquimista não deva ser objeto de desqualificação ou repúdio por parte de ninguém que não queira se fortalecer com o rebaixamento alheio.

***

Comecei esse texto querendo falar do Caio Fernando Abreu, de como eu gostava dos livros dele quando era adolescente e de como ele salvou minha vida. Sendo que, hoje, já não vejo grande coisa na maior parte dos seus contos. Isso é muito bonito no texto, tanto na escrita quanto na leitura: a novidade se impõe pelo acaso e é mais gostoso se a gente estiver disposta a abraçá-la. Um galho boiando no rio.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A chave emperrada

Sobre A chave de casa eu escrevi um texto em cima do muro, sem juízo de valor. É o caso?

Ah, mas eu também preciso dizer: é um texto cafona, sim, arremedo de Lispector. Não dos piores imitadores da Clarice, mas de alguém que segue o rastro sem pólvora. Desses, A chave de casa é dos melhores. Chafurdemos.

Não é um livro ruim, no geral. Falta corpo, falta fogo
--- falta amor ---
Tem, no entanto (falta-amor-tem-no-entanto) uma arquitetura charmosa e, fora o descuido com as palavras, um encadeamento legível. Quer mais? Bom pra passar um tempo, sentir um prazerzinho e adquirir um pouco de conhecimento pitoresco sobre a Turquia.

Mas Proust também é bom. E A hora da estrela não é pra qualquer domingo.
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