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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

alheava (4)

Dois caminhos principais no trabalho: uma via seca e outra úmida. (A nomenclatura eu estou tirando do livro Tarô ou a arte de imaginar, de Alberto Cousté, p. 35, onde há a seguinte esquematização das vias de ação no mundo e de acesso ao conhecimento:

Via seca: Solar. Masculina. Racional. Conhecimento dedutivo. Extroversão. Ordem dórica.
Via úmida: Lunar. Feminina. Intuitiva. Conhecimento indutivo. Introversão. Ordem jônica.

Esquematismos à parte...)


João Lima Pinharanda observa que as modalidades de exposição da memória, em alheava, são "através de documentação objectiva (fotos, maquetas, plantas, textos de época) ou de recontares e rememorações subjectivas, sujeitos às alterações provocadas por estratégias de imagem e por lapsos discursivos fruto do próprio passar de tempo". Num primeiro momento, a gente pode dizer que a objetividade aparece numa caixa ou num mapa que, didaticamente, encenam o deslocamento físico de Moçambique a Portugal ou o deslocamento político de Portugal a Moçambique. Por outro lado, as "rememorações subjectivas" residiriam nas fotos de família, por exemplo.

Em "Fotografia: uma pequena suma", Susan Sontag identifica a fotografia ("a maneira inelutavelmente 'moderna' de ver") à frieza do fragmento da aparência. "Como somos modernos (e se temos o hábito de olhar fotos, somos modernos por definição), compreendemos que todas as indentidades são construções. A única realidade irrefutável - e nossa melhor pista para a identidade - é a aparência que as pessoas têm". E em outro trecho: "a fotografia não é uma espécie de agitação moral ou social, destinada a nos incitar a sentir e a agir, mas sim um projeto de notação. Olhamos, registramos, reconhecemos. Essa é uma maneira mais fria de olhar. É a maneira de olhar que identificamos como arte." Nessa concepção, portanto, a fotografia é o subjetivo de tal modo objetivado que sai dos caminhos intuitivos para se integrar à razão fraca (que é a razão moderna), que mesmo fraca não se funde à não-razão.

Não creio que Susan Sontag estivesse pensando nas fotos de família. Essas, ainda que passem pelos mesmos procedimentos básicos de qualquer fotografia, geralmente não se destinam à exposição pública. Mesmo quando mostradas numa festa, após uma exposição rápida elas voltam para o silêncio dos álbuns, que são guardados no escuro dos armários e é esse o lugar delas, o lugar que elas ocupam na memória de quem as tirou - diferentemente das fotografias profissionais que, mesmo guardadas no escuro, na intenção do fotógrafo estão alocadas em alguma parede à vista dos outros. Portanto as fotos de família estão baseadas especialmente no afeto. E, no afeto, a aparência não é "a única realidade irrefutável", mas certamente é uma das realidades irrefutáveis para a vivência do carinho e das saudades.

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Ao expôr publicamente suas fotos de família, um artista pode deslocar para o status de arte algo que, para os parentes e antepassados que tiraram aquelas fotos, deveria ter apenas um status afetivo. Hoje, essa é uma atitude bastante plausível, dado que a superexposição é o que dá estatuto de realidade ao indivíduo (vide Facebook) (lendo também Lipovetsky, "Narciso ou a estratégia do vazio").

Vendo, no entanto, o conjunto do projeto alheava, me parece que esse não é (o único?) o motivo das fotos. Isso quando se percebe que as duas vias - a seca/objetiva e a úmida/subjetiva - são, talvez, uma única via - de mão dupla. A documentação oficial, alojada num foco pessoal, transforma-se em rememoração afetiva. Nas nossas gavetas, junto com as fotos íntimas, estão a certidão de nascimento, a conta do banco, o panfleto entregue na esquina. A memória afetiva não é nada de menos. Vide as canções do Roberto.

Por outro lado, todo esse material trazido a público em registro de arte. Daí me ocorrem duas coisas: primeiro, a proposta de uma discussão política (histórica, estética, tudo isso é político também). Depois, o aceno para uma comunhão afetiva.







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esta é uma aproximação gradativa do trabalho alheava.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

alheava (3)

um mapa / o conhecimento visual em escala / / / nos antigos mapas da china os monstros marinhos / sendo um mapa a projeção de uma vontade de mundo

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a representação. mundo das ideias, mundo real, deus fez o homem a sua imagem e semelhança / teleologia do táctil.

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aqui abaixo, o óbvio: moçambique deixa de fazer parte do mapa português. o alfinete marcamapas cravado no intervalo de uma ideia. o mundo como seria se / um grande globo de países destacáveis.

se o conhecimento é uma reapresentação.

perceber o óbvio?



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(a chave da representação / acho que a percebo, mas não me parece tão interessante. é porque o óbvio não me interessa.?. / as referências imagéticas são um deserto na nossa cabeça / de dunas móveis, areias / um deserto muito vivo. talvez eu queira mais o fogo do súbito do que esse garimpo da percepção. ou, mais: será que esse movimento assim durado cabe no espaço das frases?)

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delicadeza precisa cuidado

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esta é uma aproximação gradativa do trabalho alheava.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

alheava (2)

ainda a falar do trabalho alheava

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Uma das coisas que mais me impressiona é a dosagem do tempo. Não me lembro, agora, de ver nada parecido em literatura. Talvez o Boitempo, do Drummond, três livros publicados durante onze anos / também neles a memória. Mas nunca li nenhum deles com atenção para dizer.

Dez anos é o tempo há que Manuel Santos Maia realiza o seu trabalho.

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O Maia mistura objetos pessoais e públicos num mesmo espaço de afeto / num mesmo espaço de exposição. Onde se reúnem fotos de família, móveis da avó, notas de dinheiro, mapas.






É da história comum de Portugal e Moçambique. Essa miscelânea de registros / na memória não há espaço para avareza. Sobre a memória, Ecléa Bosi escreve num ensaio

Existe, dentro da história cronológica, outra história mais densa de substância memorativa no fluxo do tempo. Aparece com clareza nas biografias; tal como nas paisagens, há marcos no espaço onde os valores se adensam.

(...) A sociedade industrial multiplica horas mortas que apenas suportamos: são os tempos vazios das filas, dos bancos, da burocracia, preenchimento de formulários...

(...) Se a substância memorativa se adensa em algumas passagens, noutras se esgarça com grave prejuízo para a formação da identidade. É grave também nesse processo o ofuscamento perceptivo, ou melhor dizendo, subjetivo, uma vez que afeta o sujeito da percepção.

As coisas aparecem com menos nitidez dada a rapidez e descontinuidade das relações vividas; efeito da alienação, a grande embotadora da cognição, da simples observação do mundo, do conhecimento do outro.

Desse tempo vazio a atenção foge como ave assustada.

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Em alheava, a substância memorativa não se adensa à revelia dos macropoderes com seus trâmites impalpáveis, mas juntamente a eles. Como nos exercícios de matemática coloridos com lápis de cor, os despojos de oficialidade que os governos derrubam sobre a nossa memória são ressignificados e entram nas veias das nossas lembranças de um modo que, talvez, a máscara da alienação não seja capaz de sustentar.

Insisto no afeto.

No afeto, a alienação das horas mortas / das imagens mortas / pode adquirir significados imprevistos.

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(esses posts estão sendo escritos a duras penas e impressões parcamente concatenadas. Eu agradeceria muito alguma ajuda, viu)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

alheava (1)

A memória da dor / é muito do que se diz e que circula por aqui. Bastante gente diz que os quatrocentos anos de escravidão, os quinhentos de matança de índios, os cem de república policial. Que a tortura durante o regime militar de 1964. Que é possível que o trauma / esse íntimo incognoscível e doloroso da psicanálise /que o trauma possa ser coletivo. E o tratamento para o trauma / desejo de Saúde / é o rasgo dos discursos, Pandora abrindo a caixa no divã. Ou nas artes.

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As metáforas hospitalares deixam-nos doentes do passado. Um trauma é encalacrado como tumor. Se coletivo, nós vivemos a metástase.

Caso as metáforas sejam reversíveis / com o projeto alheava, de Manuel Santos Maia, me ocorre pensar que a alegria pode ser uma ação de busca de um presente perdido no passado.

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Qualquer busca implica um movimento. E todo movimento, por ser o oposto da melancolia (desencanto com o passado, medo do futuro, tristeza no presente, ação paralisada), já tem em si um princípio de alegria.





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Já que em 2016 haverá Olimpíadas no Rio de Janeiro, é legal que a gente considere que o Estado-Nação está nos nossos corpos / assim como nos documentos / mas também no nosso afeto. Um dos divertimentos da psicanálise é dissecar o sonho / historiciza os símbolos / e ninguém há de depor contra o materialismo histórico que como prática de pensamento não só é de muita valia contra o despotismo teocrático como é inerente à organização social burguesa que conta os segundos como moedas.

Mas se a gente novamente conseguir retroceder na análise / e tentar entender, antes, o amor dos lápis de colorir.

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