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quinta-feira, 19 de março de 2015

romance americano

Se o romance do século 19 serviu à formação do Brasil como Estado, os do século 20 terão servido ao seu derruimento?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Lucíola, de José de Alencar

Lido dez anos depois, sem a obrigação escolar, o que eu não tinha percebido ou não lembrava: é gostoso de ler.

Gostoso = sem encontrões. A leitura é fluida, monótona.

O único incômodo é o de encontrar uma realidade tão absurda, o Rio de Janeiro do século 19, sem sunga, sem violência urbana, até sem escravidão. Homens e mulheres elegantes entretidos em suas próprias relações monogâmicas, heterossexuais, em que tudo se deve a si mesmo, à pessoa ao lado, à sociedade e a Deus sobre todas as coisas. Esse conforto instalado no absurdo me faz ter a impressão de estar lendo um romance surrealista, e isso me diverte.

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A palavra prostituta não é dita. Puta muito menos. Lúcia é cortesã.

Gabriela Leite em discurso na Câmara Municipal do Rio de Janeiro:  "Puta, para as pessoas, é nada, não chega nem a ser mulher. Eu gosto muito da palavra puta, porque eu quero que um dia essa palavra se torne uma palavra bonita. Porque você não faz movimento nenhum se escondendo debaixo da mesa".

A cortesã de Alencar é diferente da puta de Gabriela. Lúcia é narrada na terceira pessoa. Gabriela é uma puta que fala.


sábado, 5 de março de 2011

La novela moderna nace del distanciamiento de los autores respecto de sus personajes, produciendo una voluntaria e irónica suspensión del juicio moral que fundamenta el oficio mismo del escritor.

(http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-160535-2011-01-16.html)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O amor nos tempos do cólera

Dizer "amor" tantas vezes que o amor se dissolva (não que ele suma).

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As narrativas possíveis do amor. O amor é um topos (um lugar-comum) literário. O amor burguês.

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O amor romanceado é o amor burguês. Do romance nasce o melodrama e a telenovela, filha direta do folhetim. O amor nos tempos do cólera é o grande catálogo das narrativas de amor, namoros proibidos desfeitos num desinteresse súbito casamentos de toda vida suicídios putaria fetichista até o amor distraído, que só percebe depois que chega, está tudo lá. O que Barthes fez (em Fragmentos de um discurso amoroso), García Márquez fez bem feito. O livro do francês destrincha o amor, seu dicionário enciclopédico de elucubrações conceituais, como faz Sophie Calle - esta em forma de galeria, não de livro. Já García Márquez usa a própria argila do conceito, sua história, seu prazer.

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Os tempos do cólera. A história se passa na virada do século XIX para o XX. Foi publicada em 1985. Como referência epidêmica, a aids. Não que García Márquez cite isso em algum momento, ou dê a entender, e talvez nem fosse sua intenção permitir essa associação. Inclusive:

uma crítica que se proponha anti-heteronormativa deve atentar - se não priorizar - o fato de O amor nos tempos do cólera ser o grande catálogo do amor heterossexual. Aliás, essa é uma chave de leitura que eu não tinha tido ainda: pois a história de García Márquez desfila uma série de relações que, apesar de variadas, jamais subvertem hierarquias de gênero, raça e classe, para falar dos três pilares clássicos dos discursos de minoria. Portanto, são histórias que reafirmam um determinado modelo de relação, que pode muito bem ser autoritário do ponto de vista de quem está fora da ou submetido à relação. Isso faz da minha leitura, que foi substancialmente de prazer, uma leitura alienada?

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A leitura é um ato político. Uma leitura não alienada é aquela que tem consciência disso.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Romances

Mas só à base de romances nenhum espírito consegue evoluir. O prazer que tal leitura pode oferecer não compensa o desgaste do caráter. Com os romances aprendemos a nos meter nos sentimentos de toda espécie de gente. Facilmente, convertemo-nos nos personagens que nos agradam. Todo e qualquer comportamento passa a ser compreensível. Docilmente, entregamo-nos a propósitos alheios, e assim perdemos de vista, por muito tempo, os nossos próprios. Romances são cunhas que o autor - um comediante que escreve - faz penetrar na personalidade de seus leitores. Quanto mais exatos seus cálculos sobre o tamanho da cunha e a capacidade de resistência, maior a fenda na personalidade.

(Elias Canetti, Auto-de-fé)

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(o personagem que pensa isso é um moralista. Mal da citação, que tira de contexto e transforma um lampejo num axioma. Uma meia-mentira numa verdade completa. A última frase desse parágrafo é "Os romances deveriam ser proibidos pelo Estado", que, se literariamente não tem nada de genial, tirada da situação desse romance se transforma num desses pedantismos reacionários disfarçados de performance. Ficção, fora da ficção. A gente deveria parar de citar e dizer só o que se diz. A citação é um esconderijo. A não ser quando ela é um raio.)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Areia nos dentes, de Antônio Xerxenesky. Confissão de leitura

Comecei a ler deu desgosto no estômago.

"E os mortos voltarão à vida", exclamou o xamã na noite, e seu grito ecoou e foi ouvido. O céu estava particularmente belo, em tons arroxeados com nuvens esparsas e finas fatiando a lua.

E havia o medo. Havia o medo em todos os cantos. Hoje em dia, os homens temem bobagens; outrora, temiam a noite e a morte. Não importava a arma no coldre.

"Exclamou na noite", "o céu belo", "a marquesa aceitou o chá", "E havia o medo. Havia o medo". Nas primeiras linhas a gente percebe: é uma paródia, uma emulação de faroeste. Isso a capa já havia dito. Eu é que começo cada livro esperando encontrar X Grande Escritorx da Minha Geração.

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Depois de poucas horas, já havia lido mais da metade do romance. "É um nada", pensei. Em nenhum momento levantei os olhos do livro para estranhar as palavras.

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Ao final da leitura, percebi que estava me divertindo. Apesar de nos últimos capítulos o livro assumir de vez um recurso didático de ficar se justificando, se explicando à guisa de metalinguagem, coisa que aparece no livro inteiro. Mas eu me divertindo.

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Me ocorreu que, não só na poesia, mas também na prosa. Diversão tem sido uma constante. Pensei na presença do folhetim no século XIX. Alexandre Dumas, José de Alencar. A "alta literatura" produzindo entretenimento.

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Se o buraco negro é o paradigma da leitura. Perder-se no vácuo. Uma literatura da alienação, a grande do século XX? Kafka, Lispector, Faulkner. Mesmo noutra linha. Bukowski, por exemplo. Alguém sempre te chuta as muletas.

Agora: não será também isso datado? Essa uma literatura netunoplutoniana, talvez uraniana (netuno as névoas, plutão a morte, urano a ruptura, os três planetas descobertos de 1781 pra cá). E agora, Plutão deixando de ser planeta, nós num tempo sem profundidade escura (o blablá do pós-moderno).

No entanto Dumas, Alencar. Saint-Clair das Ilhas. E "literatura" é um conceito romântico. Dante não tinha interioridade freudiana. Até o século XVIII, em grande parte, o que hoje a gente chama de literatura era reprodução de gêneros. A crítica é descritiva, a poética era prescritiva.

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Não sei.

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Divertido, sim, o Areia nos dentes. Isso é um problema?
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