sábado, 6 de fevereiro de 2010

Faz de conta que todo mundo morreu

Uma leitura psicanalítica dos filmes de zumbi? Faz tempo que eu não pego o Freud, mas do que me lembro:

O duplo é um conceito que narra o reconhecimento que temos de um outro que julgamos similar a nós mesmos, mas que, em dado momento, revela-se estranho. Por lógica e analogia, essa esquisitice que reconhecemos no outro que julgávamos ser similar a nós faz com que reconheçamos, em nós, também a esquisitice do outro. Ou a possibilidade de esquisitice, como a que vemos no outro. Logo, não nos reconhecemos mais.

Freud cita um conto em que o personagem vê da sua janela, em outra janela, uma mulher por quem se apaixona. No desenrolar do conto ele acaba descobrindo que a mulher não é uma mulher, mas um autômato, uma boneca-robô criada por um artífice-cientista.

A palavra usada por Freud para esse conceito é unheimlich: o prefixo "un-" é uma espécie de negação e a palavra "heimlich", ao mesmo tempo em que significa "oculto, clandestino", é derivada de "Heim", que significa "lar, casa".

O morto-vivo costuma aparecer nos filmes como a polpa animal do humano. Fundamentalmente, ele é desprovido de afeto e constituído por fome e esquecimento. A necessidade de devorar pode, ocasionalmente, levar ao desenvolvimento de uma inteligência muito primária, mas às vezes suficiente para devorar seres humanos desesperados que deixam de raciocinar com clareza devido ao medo e ao cansaço. Paradoxalmente, é a própria inumanidade dos zumbis que faz com que eles persistam num caminho em que os humanos coadjuvantes (nunca os protagonistas, como em qualquer filme de terror) acabam falhando. O grande poder do zumbi é a sua persistência.

Assim como o robô é um duplo inorgânico e o vampiro é um duplo maligno, o zumbi é um duplo exclusivamente corporal. Bruce La Bruce, no filme Otto; or, Up with dead people, leva ao extremo a corporalidade do zumbi ao colocar os mortos-vivos para transar. Nesse pornô macabro, o morto devora os intestinos de um homem e depois mete o pau duro na barriga aberta. Os mortos comem duplamente.

George Romero, por sua vez, faz dos zumbis uma alegoria da sociedade de consumo ao filmá-los lado a lado com manequins de loja de roupa* no filme Madrugada dos mortos. No título original, Dawn of the dead, o tom apocalíptico é mais enfático: "dawn" é a alvorada. O pastor evangélico anuncia a nova era dizendo, talvez uma citação bíblica, que "quando os mortos não tiverem mais espaço no inferno, eles andarão entre os vivos". Na sequência de abertura da refilmagem de Madrugada dos mortos, Johnny Cash canta seu Apocalipse country "The man comes around" e se sucedem imagens de zumbis atacando, mas também de guerras e mesmo de manifestações de massa (como a imagem de uma mesquita cheia, com todas as pessoas se inclinando ao mesmo tempo para rezar). A sequência remete à primeira parte do filme Nossa música, de Godard, em que o espectador é bombardeado por cenas de destruição tanto de filmes de ficção quanto de registros históricos, a ponto de você não saber qual é qual e tudo o que resta é a própria destruição, intransitiva.

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(Escrevi isso lendo esse texto aqui e o título é da música dos Homophones)

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* Sylvia Plath escreveu o poema "Os manequins de Munique", parece que com menções aos campos de concentração nazistas.



A perfeição é horrível, ela não pode ter filhos.
Fria como o hálito da neve, ela tapa o útero

Onde os teixos inflam como hidras,
A árvore da vida e a árvore da vida.

Desprendendo suas luas, mês após mês,
sem nenhum objetivo.

O jorro de sangue é o jorro do amor,
O sacrifício absoluto.

Quer dizer: mais nenhum ídolo, só eu
Eu e você.

Assim, com sua beleza sulfúrica, com seus
sorrisos

Esses manequins se inclinam esta noite
Em Munique, necrotério entre Roma e Paris,

Nus e carecas em seus casacos de pele,
Pirulitos de laranja com hastes de prata

Insuportáveis, sem cérebro.
A neve pinga seus pedaços de escuridão.

Ninguém por perto. Nos hotéis
Mãos vão abrir portas e deixar

Sapatos no chão para uma mão de graxa
Onde dedos largos vão entrar amanhã.

Ah, essas domésticas janelas,
As rendinhas de bebê, as folhas verdes de confeito,

Os alemães dormindo, espessos, no seu insondável desprezo.
E nos ganchos, os telefones pretos

Cintilando
Cintilando e digerindo

A mudez. A neve não tem voz.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Debaixo de água e no ar ao contrário

No que a literatura tem de afeto gratuito, feito uma dádiva de ninguém, você andando pela rua passa uma ponte e de repente percebe a belezura de um rio: que é um deslizar de águas. No nosso olhar, elas são só o movimento, sem origem nem destino, e está bem estarem as margens ali, em consonância com as ondas marrons que podiam ser de terra, as margens mesmo que sejam cimentadas, é que a beleza não escolhe ideologia pra pousar.

Naquela entrevista famosa pra TV Cultura, uma parte Clarice Lispector diz que, quando não escreve, está morta. Se existe uma verdade, junto com a Lispector eu escolho esta: é graças à arte que a gente vive.



O que não é nenhuma ideia original - aliás, como nenhuma outra. Um texto muito bonito - "A arte como procedimento", de Chklovski - diz o seguinte:

E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é um meio de experimentar o devir do objeto, o que é já "passado" não importa para a arte.

Essa experiência do devir é a esperança palpável que uma leitura traz quando toca a gente. "Palpável" porque aí não se trata de um ancoramento no futuro, mas sim de um voo firme simultâneo a um pouso leve no presente: o que Gandhi se recusa a chamar de "Verdade" e chama de "experiência com a verdade". Quando lemos um texto que nos faz experienciar a verdade, temos um encontro de matérias (as nossas mãos, o papel do livro) que se transforma num êxtase de sentidos (como quando lemos uma frase e os olhos se desviam do livro, porque o corpo pede). É a vida intensa, concentrada.

Nesse sentido, a literatura não pode ser isolada da experiência material e histórica da leitura. Uma biblioteca é um depósito de possibilidades, mas jamais se poderá ditar as palavras em que os outros se satisfarão, de modo que se torna bastante compreensível porque, para muitas pessoas, as aulas de literatura do colégio se tornam um fardo e, posteriormente, uma lembrança ruim e engraçada.

No ABC da Literatura, Pound desenvolve a ideia de que a literatura deve apenas ser ensinada aos que realmente se interessarem por ela. Realmente, quando tomamos a literatura como um conjunto de referências históricas e conceituais (o cânone ou, no caso de Pound, o paideuma), faz sentido que não seja de interesse geral um aprofundamento nos meandros desses referenciais. No livro Como falar dos livros que não lemos, Pierre Bayard advoga que, sendo impossível a qualquer pessoa ler todas as obras canônicas existentes, o que se deve esperar é uma mínima familiaridade com seus títulos e com a importância que atualmente se dá a cada uma delas. Esse pragmatismo do senso histórico pode ser bastante útil para uma sala de aula.

Também porque, assim, talvez seja possível a gente separar a literatura como uma instituição da literatura como experiência estética. Se mencionar Paulo Coelho numa discussão letrada pode entortar muitos narizes, imagino que a "singularização do objeto" sentida com a leitura de O alquimista não deva ser objeto de desqualificação ou repúdio por parte de ninguém que não queira se fortalecer com o rebaixamento alheio.

***

Comecei esse texto querendo falar do Caio Fernando Abreu, de como eu gostava dos livros dele quando era adolescente e de como ele salvou minha vida. Sendo que, hoje, já não vejo grande coisa na maior parte dos seus contos. Isso é muito bonito no texto, tanto na escrita quanto na leitura: a novidade se impõe pelo acaso e é mais gostoso se a gente estiver disposta a abraçá-la. Um galho boiando no rio.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Fracasso livre

Na contracapa de Amavisse, editado pela Massao Ohno em 1989, Hilda Hilst publica um poema que é uma espécie de fecho do seu livro, um apêndice de fora / e, por isso mesmo, talvez um reto ou um rabo. Não encontrei o poema nas edições das Obras Reunidas pela Globo, mas lembro da citação que ela faz de Bataille ao final: "Sinto-me livre para fracassar".

De modo geral, a poesia de Hilda Hilst nunca teve a brutalidade vulgar de sua prosa. Embora em nenhum momento ela tivesse medo das palavras, inclusive dos barbarismos universais ("Extasiada, fodo contigo / Ao invés de ganir diante do Nada."), é fácil perceber uma mudança significativa de tom entre os textos em verso e os contos e romances da autora.

*

Todo o trabalho de HH pressupõe e ficcionaliza Deus como um Ser anterior e superior, mas ao mesmo tempo imediato e corpóreo pela Sua crueldade inerente. Se Deus é criador de todas as coisas e se toda a vida provém de Deus, e se "É crua e dura a vida", Deus então é uma criança malvada e esquiva que nos inventa a chafurdar, que aperta a campainha e sai correndo.

*

"Um arco-íris de ar em águas profundas."

O "sinto-me livre para fracassar" de certa forma anuncia (no sentido de que noticia) o abandono da dicção sublime para mergulhar nas lamas profundas do sexo, o charco da literatura que é a pornografia. Após Amavisse, HH publicou sua então polêmica trilogia pornográfica, composta por O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d'escárnio. Textos grotescos e Cartas de um sedutor, acrecida de um quarto volume, o único em verso, os contos de fada satíricos de Bufólicas.

*

Hilda Hilst e Clarice Lispector têm muitas semelhanças de trajetória. Gosto disso. E Clarice Lispector publicou, também já com uma carreira consagrada, A via crucis do corpo.

Quando cheguei em casa uma pessoa me telefonou para dizer-me: pense bem antes de escrever um livro pornográfico, pense se isto vai acrescentar alguma coisa à sua obra. Respondi:

- Já pedi licença a meu filho, disse-lhe que não lesse meu livro. Eu lhe contei um pouco as histórias que havia escrito. Ele ouviu e disse: está bem. Contei-lhe que meu primeiro conto se chamava "Miss Algrave". Ele disse: "grave" é túmulo. Então lhe contei do telefonema da moça chorando que o pai morrera. Meu filho disse como consolo: ele viveu muito. Eu disse: viveu bem.

Mas a pessoa que me telefonou zangou-se, eu me zanguei, ela desligou o telefone, eu liguei de novo, ela não quis falar e desligou de novo.

Se este livro for publicado com mala suerte estou perdida. Mas a gente está perdida de qualquer jeito. Não há escapatória.

A via crucis do corpo, que num primeiro momento se apresenta como um livro de contos, vai aos poucos tomando forma de um diário desleixado, às vezes de um caderno de anotações e, por que não?, de um blogue. Pois é uma intimidade que se expõe nos seus métodos e também nos seus afazeres mais banais. "Ah, já sei o que vou fazer: vou mudar de roupa. Depois eu como, e depois volto à máquina. Até já. / Já comi. Estava ótimo. (...)". Como em A hora da estrela, n'A via crucis do corpo Lispector simultaneamente marmoriza e dinamita a si mesma enquanto Autora, Escritora, Celebridade. Assim como os últimos trabalhos de Hilda Hilst, os últimos livros de Lispector escrevem não apenas as histórias que contam, mas também as das pessoas que as contam.

Uma vez fui a Campos de táxi-aéreo e fiz uma conferência na Universidade de lá. Antes me mostraram livros meus traduzidos para braille. Fiquei sem jeito. E na audiência havia cegos. Fiquei nervosa. Depois havia um jantar em minha homenagem. Mas não agüentei, pedi licença e fui dormir. De manhã me deram um doce chamado chuvisco, que é feito de ovos e açúcar. Comemos em casa chuvisco durante vários dias. Gosto de receber presente.

Surge assim que o dispositivo "Literatura", usado para justificar os livros, é esvaziado de significado. "Pois é. Sei lá se este livro vai acrescentar alguma coisa à minha obra. Minha obra que se dane. Não sei por que as pessoas dão tanta importância à literatura. E quanto ao meu nome? que se dane, tenho mais em que pensar. / Penso por exemplo na amiga que teve um quisto no seio direito (...)".

*

A coisa do blogue que eu disse lá em cima. Escrever um blogue hoje é uma coisa muito besta. Tem até aquela antologia digital da Heloísa Buarque de Holanda. Que eu nem li, então nem sei se é besta. Mas blogues são bestas no sentido de que a coisa já está dada e você só precisa brincar com ela. Admira mesmo é uma dicção tão semelhante à mais banal de hoje ter sido usada em 1974. Ou mesmo mais tarde, pela Ana Cristina Cesar. Aí eu já acho que é profetismo. E antena da raça. Mas só estou escrevendo isso pra relativizar e pra situar bem os termos. Porque não quero ser mal interpretado.

*

Fim.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Romances

Mas só à base de romances nenhum espírito consegue evoluir. O prazer que tal leitura pode oferecer não compensa o desgaste do caráter. Com os romances aprendemos a nos meter nos sentimentos de toda espécie de gente. Facilmente, convertemo-nos nos personagens que nos agradam. Todo e qualquer comportamento passa a ser compreensível. Docilmente, entregamo-nos a propósitos alheios, e assim perdemos de vista, por muito tempo, os nossos próprios. Romances são cunhas que o autor - um comediante que escreve - faz penetrar na personalidade de seus leitores. Quanto mais exatos seus cálculos sobre o tamanho da cunha e a capacidade de resistência, maior a fenda na personalidade.

(Elias Canetti, Auto-de-fé)

*

(o personagem que pensa isso é um moralista. Mal da citação, que tira de contexto e transforma um lampejo num axioma. Uma meia-mentira numa verdade completa. A última frase desse parágrafo é "Os romances deveriam ser proibidos pelo Estado", que, se literariamente não tem nada de genial, tirada da situação desse romance se transforma num desses pedantismos reacionários disfarçados de performance. Ficção, fora da ficção. A gente deveria parar de citar e dizer só o que se diz. A citação é um esconderijo. A não ser quando ela é um raio.)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Querido azul

Na última grande viagem que fiz sozinho, levei poucos livros. O ônibus demorou dois dias e meio pra atravessar o sul do Brasil, os pampas argentinos, subir e descer os Andes e chegar a Santiago. Nesse trajeto li O velho e o mar, do Hemingway. Uma edição de bolso em inglês com uma capa xurumbrega. Gostei de uma imagem do texto que dizia algo sobre tartarugas sendo mortas de modo cruel, parece que se lhe cortam os membros e ela continua viva e doendo. O narrador comparava o velho à tartaruga, mas não lembro de que jeito. Na mesma viagem, na volta, li num conto do Cortázar e achei bonito:

TORTUGAS ANIMALES DELICADOS. ALGO TONTOS, NO DISTINGUEN. UNA LASTIMA.

*

Levei também o Invenção de Orfeu, do Jorge de Lima. Cada vez que eu pego nesse livro, tenho a impressão de que é, sei lá, o maior livro de poesia brasileira do século XX, um rótulo assim. O-maior-acontecimento-místico-ao-lado-do-Mensagem-de-Fernando-Pessoa. Muito denso e malucão. Mas não consigo ler porque a minha edição é muito ruim, pequenininha gorducha espremida nela mesma, e esse é um livro de e s p a ç o s . São dez cantos ao todo, acho, e eu ainda não consegui passar do IV.

*

Agora estou lendo o Auto de Fé, do Elias Canetti. Mas não é um livro bom pra levar em viagens: muito grande, pesa na mochila. E parece que a estória se passa dentro de uma biblioteca. Que quero eu com bibliotecas? Pegar avião, caçar borboleta.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Confissões de leitura

O livro, como produto, independe do texto. Quero dizer: qualquer texto pode ser formatado assim ou assado. Uma boa edição com ilustrações bonitas e voalá, temos um bom livro - de folhear, amor táctil.

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O texto é apenas um dos componentes da leitura. (Machado de Assis, na biblioteca, sempre teve cheiro de pó)

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Comprei um livro lançado neste ano. Tive ânsia de tê-lo. Fui ler e. Era um doce bonito de gosto vagabundo. Cuspi, dei embora.

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De uma propaganda da Estante Virtual: compre em sebos, as livrarias estão cada vez mais achatadas em lançamentos.

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Eu vejo um museu de grandes novidades.

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Diz que perguntavam pro Drummond "e a literatura contemporânea?", e ele respondia "Estou atrasadíssimo nos gregos."

E que perguntaram pra Clarice "que conselho você dá aos jovens escritores" e ela: "Que escrevam."

§

Floradas na serra é um romance de Dinah Silveira de Queirós que foi um sucesso na época, 1939. Deu filme com Cacilda Becker nos anos 50. É a história de um grupo de jovens que vai para Campos do Jordão, acho, tratar da tuberculose. A narrativa alterna amores cândidos com golfadas de sangue, mas não chega a ser melodramática. Parece que Cacilda Becker protagonizou o filme no papel da antagonista do livro, a fatal Lucília, que recusa tratamentos e se envolve com muitos homens, mas se fode e termina com uma costela a menos - por conta da tuberculose. Tirar costelas era um tratamento extremo.

Lucília também é título de um romance do Alencar que conta a história de uma mulher forçada pela vida a se prostituir, mas ela tem um bom coração. O nome da heroína e do livro devem remeter ao pirilampo, vagalume, também lucíola, como uma luz fraca e incerta que atravessa densidades escuras até sumir da nossa vista.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Caixa-preta

As aparências desenganam. Estou desenganada.

O lance da contracultura: referências não compartilhadas. Um texto que diz

Uma frase em cada linha. Um golpe de exercício.
Memórias de Copacabana. Santa Clara às três
da tarde.
Autobiografia. Não, biografia.
Mulher.
Papai Noel e os marcianos.

põe na mesa, no aleatório, o diário pra ser espiado. E o diário se expia quando o leitor abraça a memória alheia, embebe-se nela, o reality show acirra as brigas em casa: cada membro da família toma pra si as feridas das pessoas quaisquer que estão na tela.

Em A teus pés, o texto medusa-sereia. Fagocita a pessoa que lê, traga-a na comunhão que diz suas memórias cotidianas são tão importantes quanto as minhas. Depois petrifica a leitura num ritmo.

*

Como única evidência de um desastre, sumário dos destroços. A caixa-preta é encontrada e nós a acessamos como registro histórico, a pista definitiva pro mistério. Mas o poeta é um fingidor ("A gente sempre acha que é / Fernando Pessoa") e Ana C. não é tonta: finge a pista, decola e aterrisa um OVNI, maravilha, apoteose. Em diversos poemas encena a mulher fatal:

"Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher
moderna."

"Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo."

"Fotogramas do meu coração conceitual.
De tomara-que-caia-azul-marinho."

"ATRAS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?"

"Aviso que vou virando um avião. Cigana
do horário nobre do adultério."

"... santa que te toma as duas mãos."

"Abre a boca, deusa
(...) as mulheres gostam
de provocação"

"eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar
(...)
bem viada, vândala"

"Não, Pedro, não quero mais brincar de puta."

"Acordei com coceira no hímen."

"Sou linda; gostosa; quando no cinema você roça
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva"

Gostosa e independente, esfinge e joguete. Imagens atribuídas mais ou menos a qualquer escritora até então (Clarice Lispector, Patrícia Galvão, Sylvia Plath, Virginia Woolf, Alejandra Pizarnik). Ana C. escreve uma pose.

*

("Caixa-preta" é o título de um poema, escrito à Ana C, do cantos de estima)
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